existia soro contra picada de cobra, aranha, escorpião, lagarto… Mas não havia nada contra a picada de abelha”, recorda o veterinário Rui Seabra, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que liderou as pesquisas para o desenvolvimento do antiapílico nos últimos 20 anos.
Anualmente, cerca de 15 mil pessoas sofrem acidentes com abelhas no Brasil. As mortes são em torno de 50.
Camila Presotto, técnica agrícola de Avaré (SP), entrou para a história da medicina por ser a primeira pessoa a receber esse tratamento, em agosto de 2016, na Faculdade de Medicina de Botucatu (SP).
“Sobrevivi graças ao soro, não tenho dúvida. Quando fui buscar uma vaca retardatária no pasto, levei entre 400 e 600 picadas de abelha, a maioria na cabeça”, conta, a voz ainda trêmula pelo susto.
O veneno da abelha libera muitas substâncias tóxicas, que provocam hemorragias, queda de pressão, tontura, visão turva, destroem as células vermelhas e os músculos, castigam os rins.
“Estava quase em falência renal quando fiquei sabendo que a Unesp tinha desenvolvido o antiapílico. Aceitei sem pestanejar a ser cobaia do experimento. Era questão de vida ou morte.”
No Apiário da Unesp, entendo a mecânica do envenenamento ao presenciar uma sessão de coleta ao lado do biólogo Ricardo Orsi: a abelha dá a vida para salvar o enxame. Defende-se cravando o ferrão numa pessoa ou animal e, quando alça voo de novo, a parte final de seu corpo fica enterrada na pele (e morre pouco depois). Abaixo do ferrão, está a bolsa de veneno.
Essa bolsa é programada geneticamente para ficar ali pulsando por longo tempo, liberando microgotas do veneno (imagine a Camila, com mais de 400 bolsinhas…).